Quarta-feira, 03.07.13
Há dois dias o Pedrito foi a correr ao palácio, depois de o seu cozinheiro-chefe, o Gasparzinho, lhe ter entregue uma carta aonde se dizia sentido com ele. pois tinha-lhe dado todo seu melhor sem nunca ter sido devidamente homenageado. Queixava-se de estarem todos contra ele, a dizerem que calculava mal a medida de sal e outras barbaridades, e acusava-o de ser o responsável pela sua demissão. Cansado, já não aguentava mais tanta ingratidão. Mas o pior é que sente muito em baixo, deprimido mesmo, à beira do colapso psicológico e mental (o médico bem que o avisou).
Quer ir embora. Quem sabe, depois da terapia venha a encontrar emprego noutra casa, uma em apreciem os seus serviços.
Sentado com o Mestre à mesa de chá do palácio, quiçá com a esposa deste No palácio, excitado, com o olhar inflamado o Pedrito dizia:
Ó chefe, isto foi o melhor que nos podia acontecer. Eu não podia despedi-lo porque os tipos lá da Alemanha iam-me bater... Assim foi muito mais higiénico. Ele apresentou-me a demissão. Está acabado! Pobre diabo! Quase me dá pena... Mas tínhamos de ter um bode expiatório, ou não é verdade?
Hum... hum... --- reflectia o Mestre, com ambos os olhos postos no seu grande nariz.
Mas ainda há melhor, chefe! A minha mulher-a-dias serve muito bem para o cargo que ele ocupava.
É da minha inteira confiança, assim como o Relvas, coitado! Desse até tive pena, mas é a vida, só sobrevivem os melhores.
Vou promovê-la a governanta!
Está bem, dizem que ela anda metida no jogo ilegal, mas qúal de nós é que não anda?
Numa festa que deu nessa noite, para a qual não convidou o Paulinho, em muitos negócios, o Pedrito anunciou aos presentes (amigos, família, criados e repórteres) que decidira promover a sua mulher-a-dias a governanta, porque o seu seu sócio, quebrando um compromisso de lealdade acabara de fugir com o rabo entre as pernas.
Mas, felizmente para todos nós, ele encontrara a solução.
Quando souberam das notícias os habitantes da cidade ficaram perplexos: - Então, mas esta não é a tal que está a ser ouvida na Polícia, por suspeita de ser uma das cabecilhas dos jogos clandestinos?!
A nova governanta tomará posse amanhã! --- Informou o Pedrito aos microfones.
Ai é? Já vais ver como elas te mordem! Não alinho mais contigo. Ficas por tua conta. Eu safo-me, sempre me safei... Olha aquela história dos submarinos..., Mas tu... ? --- ruminava o Paulinho.
Ontem, vingando-se, atirou-lhe com as pastas ao chão. Nelas, iam muitas negociatas para concluir e muitas outras já realizadas.
Se Pedrito ficou aturdido não foi aqui que o demonstrou.
Já sendo do conhecimento da maioria das pessoas que o Paulinho atirara com os pesados dossiers aos pés do sócio, e que a seguir lhe virara as costas, sem sequer se depedir (afinal eram próximos...), chega o momento da coroação da diva, digo, da governanta que antes era mulher-a-dias.
Todos os presentes tinham cara-de-pau.
O Mestre observava atentamente o seu próprio nariz ponteagudo, mirando de vez em quando a premiada.
Mas esta não conseguia disfarçar nem o medo no olhar nem a crispação do rosto.
O responsável pela conspiração, que culminou na ascensão da Luíz, apareceu sorrateiro já na parte final da cerimónia. Permaneceu durante alguns minutos e tornou a surripiar-se pela porta dos fundos.
Em todos os momentos em a câmara o apanhava ele mostrava um sorriso parado, sem vida, e os olhos vidrados.
Será pânico???
Pudera! O Pedrito deixou-lhe uma bomba nas mãos!
Lilith